Os 156 anos de Carrington


Os 156 anos de Carrington

No dia primeiro de setembro de 1859, o jovem astrônomo inglês Richard Carrington observava o Sol com toda a segurança que isso exige. Ele projetava sua imagem em uma tela e, por sobre ela, desenhava as manchas cuidadosamente. Naquela manhã, ele registrava um enorme grupo de manchas, quando grânulos de um brilho branco ofuscante surgiram se intensificando rapidamente, moldando-se na forma de dois feijões. Ciente de que estava diante de algo sem precedentes e tomado de surpresa, Carrington correu para chamar alguém que testemunhasse o fenômeno com ele. Voltando ao seu telescópio em menos de um minuto, ele ficou pasmo com o que viu: os dois feijões tinham encolhido ao tamanho de dois meros pontos até que simplesmente desapareceram. Passaram apenas 5 minutos desde que notara o flash sobre sua tela.

Ao entardecer do dia seguinte, os céus de todo o planeta queimavam em auroras vermelhas, verdes e púrpuras, que tão brilhantes permitiam que jornais pudessem ser lidos como se fosse dia! Auroras eram avistadas vívidas em lugares tão improváveis como Cuba, Bahamas, Jamaica, El Salvador e Havaí. Existem relatos de avistamento de auroras até mesmo nas Guianas, em plena floresta amazônica!

Pelo mundo afora os sistemas telegráficos estavam fora de controle, transmitindo sinais erráticos e sem sentido. Operadores tomavam choque, faíscas pulavam dos aparelhos provocando pequenos incêndios. Mesmo quando desligados de suas baterias, as correntes elétricas induzidas pelas auroras nos fios dos telégrafos ainda permitiam que eles funcionassem normalmente!

Mas o quê Carrington viu?

Ele testemunhou um evento conhecido como explosão solar magnética. Hoje sabemos que esse tipo de explosão ocorre frequentemente, especialmente durante o período de máximo solar, quando o Sol está no pico de atividade magnética, coisa que acontece periodicamente a cada 11 anos. A maioria desses eventos pode ser reconhecida através da atividade ionosférica, que altera a propagação das ondas de rádio, perturba o sinal de GPS e da TV via satélite, mas também através dos raios-X liberados nas explosões que são detectados do espaço.

A violência da explosão de 1859 liberou uma nuvem de 20 bilhões de toneladas composta por partículas carregadas e conhecida como ejeção de massa coronal (CME). Ela se chocou diretamente com a Terra no dia 2 de setembro, provocando todos os efeitos relatados acima nos poucos equipamentos elétricos da época. Os estragos só não foram maiores justamente por que as aplicações da eletricidade ainda engatinhavam. Desde então, nossa sociedade está mais e mais dependente deste tipo de energia. Hoje em dia é difícil passar um dia sequer sem usar algum tipo de equipamento de acionamento elétrico.

O tamanho do estrago causado na Terra depende da intensidade da explosão, claro, mas também de quanto da CME nos atinge. As explosões ficam mais frequentes nos períodos de máxima atividade solar, que acabamos de sair há poucos anos, mas observatórios pelo mundo todo ficam de olho sempre. Uma explosão solar intensa, uma CME batendo em cheio, é estrago certo.

Em agosto de 1972 uma explosão enorme silenciou as comunicações no estado do Iliniois, EUA. Em março de 1989 o estrago foi muito maior. Uma explosão enorme também provocou tempestades geomagnéticas que torraram uma usina hidrelétrica no Canadá, detonando também o sistema de distribuição de energia de Québec; transformadores derreteram em Nova Jersey. Em dezembro de 2005, outra explosão solar perturbou os sistemas de navegação de GPS durante 10 minutos. Nesse período, aeronaves, navios e plataformas de petróleo ficaram perigosamente desorientados. Quanto mais sofisticados os sistemas eletrônicos ficam, mais sensíveis eles estão a esse tipo de evento. Quanto mais dependentes de sistemas eletrônicos ficamos, maiores serão os estragos em casos de eventos violentos.

Um outro evento de Carrignton poderia acontecer? Sim, as probabilidades são baixas, mas pode sim. De fato, isso aconteceu, em 23 de julho de 2012.

Em termos de energia, a explosão de 2012 foi tão intensa quando a de 1859, o que nos salvou de voltarmos à metade do século 19 foi que a CME não nos atingiu. Não houve estragos, mas ela passou assustadoramente perto.

Dois anos depois, em 2014, pesquisadores da NASA estimaram os prejuízos em até 20 trilhões de dólares, que seriam causados se a CME tivesse nos atingido. Os satélites de comunicação teriam pifado, as estações de energia, sobretudo aquelas em altas latitudes, poderiam ficar irremediavelmente danificadas, GPS, celulares, cabos interoceânicos seriam apenas peças de decoração. É bem provável que se essa tragédia eletrônica tivesse acontecido em 2012, ainda estaríamos tentando nos reerguer e poderia nem haver internet para ler o blog.

As chances de outro evento Carrington acontecer novamente, com a CME nos pegando em cheio, são estimadas em 12% nos próximos 10 anos. Apesar dessas previsões não serem tão sólidas quanto a previsão do tempo no jornal, que já são aquela coisa, 12% é um número preocupante. Essa estatística pode não ser confiável, mas para mim indica que ela não é zero e que um plano de contingência deveria ser pensado para evitar que o planeta volte aos anos 1800 por muito tempo.



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